Há coisas tão ruins que acontecem na nossa vida que a gente deixa guardadinho lá no fundo pra não lembrar e se magoar ainda mais. Comigo essa mesma coisa aconteceu 2 vezes, em épocas diferentes. Como já disse, preferia deixar essas história enterrada e fingir que nada aconteceu, mas me dei conta que se fizer isso vou deixar de ajudar outras pessoas e isso não é justo. Então vamos lá!
Em 2009 eu morava em Belo Horizonte e meus pais moravam no interior de Minas, numa cidadezinha dessas que todo mundo conhece todo mundo. Tinha 20 anos e uma conta no Orkut recheada de informações sobre a minha vida. Letras de músicas e poemas que gostava, fotos minhas com amigos, de bebedeiras, com a família e em festas que eu frequentava, tudo desbloqueado. Nunca fui exibicionista, aquelas informações estavam ali apenas para compartilhar minha vida feliz com qualquer um (era o que todo mundo fazia, não era?). Tinha mais de 500 "amigos" virtuais que eram todos "reais" pois a única precaução que eu tomava era adicionar só quem eu conhecia pessoalmente (pessoas que eu tinha visto uma vez na vida por 5 minutos podiam ser adicionadas porque né?, gente nunca sabe o dia de amanhã).
Eis que um dia eu abro o Orkut e aparecem várias mensagens de amigos me alertando sobre um perfil falso com o meu nome e uma foto minha embelezada com orelhas e focinho de porco. No álbum desse mesmo perfil haviam outras fotos como mesmo tipo de "arte", imagens da Miss Piggy dos Muppets e fotos de mulheres obesas de biquíni. Tudo tão excessivamente ofensivo que nem dava pra entender de onde o sujeito tirara tamanha criatividade.
Com o choque, a primeira que acusei foi a ex-namorada do meu então namorado. Sabia que eu não era a pessoa que ela mais gostava no mundo, mas não entendia porquê ela tinha se dado ao trabalho de conseguir fotos minhas e perder tempo fazendo uma palhaçada daquelas. Também notei que o responsável pela "
brincadeira" adicionou como amigos apenas pessoas (adicionadas por mim no perfil verdadeiro ou não) da tal cidade que meus pais moravam. Foi quando me dei conta da coisa toda! Não foi a menina a criminosa, mas três dos melhores amigos do meu ex. Fico pensando o que fazem os inimigos se os "
amigos" fazem uma coisa dessas... Esses meninos também eram amigos da minha família e frequentavam a casa dos meus primos, tios, e avó.
Cheguei a ir na delegacia no dia seguinte, mas se hoje em dia crimes virtuais são muito mais complicados que os reais, imagine isso bem antes do caso da Carolina Dieckmann. O policial alegou que precisava do perfil falso impresso antes que ele saísse do ar para dar início à investigação, mas como vários amigos viram o absurdo todo e denunciaram, em 24 horas ele já estava fora do ar. Além disso, acho que os próprios
"gênios", alertados pelo meu ex-namorado, excluíram o perfil para evitar maiores problemas (diga-se de passagem, um deles estudava Direito. Uma ~maravilha~ de profissional, suponho eu.).
Já em 2012 eu estava em Dublin, quase no fim do intercâmbio. Usava o Facebook ao invés do Orkut para manter contato com os amigos. Continuei adicionando apenas as pessoas que eu conhecia, mas no mesmo esquema de antes, sem muito rigor. Eu não
sou era a favor de ficar bloqueando as redes sociais, muito pelo contrário, acho que se todo mundo usasse conscientemente poderia surgir de lá um número ainda maior de amizades verdadeiras e grandes amores.
De novo comecei a receber mensagens avisando sobre um perfil com a minha foto, mas com outro nome, que estava adicionando meus amigos (dessa vez eram os de BH, grande parte colegas e professores da faculdade). No Facebook a minha conta também não era bloqueada, mas eu filtrava as informações compartilhadas. Mais uma vez tive os meus palpites de quem poderia ter feito aquilo, mas não me incomodou tanto porque não foi nada tão ofensivo – se é que alguém roubar a sua identidade pode ser classificado como "não ofensivo". Criaram um álbum com fotos minhas, pegas no meu perfil, e de pessoas que eu desconheço. O que me irritou foram os erros de português nas postagens e as páginas curtidas, mas tudo muito infantil. O perfil também foi tirado do ar em torno de 24 horas depois das várias denúncias de amigos (O
brigada pessoal!).
Hoje, depois de tanto tempo, sei que foi bobeira me magoar por atitudes de pessoas tão pequenas como essas. Inevitável, mas bobeira. É claro que ser exposta dessa forma deixa a gente triste, constrangido. É muito ruim imaginar que outras pessoas estão atrás de uma tela cheias de coragem pra nos fazer de alvo e pessoalmente não conseguem nos olhar nos olhos. Isso é covardia, é atacar sem a mínima possibilidade de defesa. E é pior ainda perceber que o mundo tá cheio de gente assim, esperando qualquer motivo – ou motivo nenhum – pra diminuir, humilhar o outro e feito isso não importa quantas pessoas viram ou souberam do fato, o sentimento de impotência é o mesmo.
Se quer saber a verdade, minhas poucas fotos no Instagram e no Facebook, as raras frases que tweeto e falsos perfis não são nada – nada mesmo! – se comparados ao risco que corro no blog. Aqui sim me jogo de cabeça, estou totalmente nua. Nunca fui muito boa no cara-a-cara, nunca confiei no poder da minha oratória. Eu travo, abaixo a cabeça, embaralho as palavras... Mas com papel e caneta nas mãos – ou teclado sob os dedos – eu me deixo levar. Escrevo, reescrevo, apago tudo e começo de novo. Não sei separar o que eu deveria ou não contar, simplesmente digito e me permito. Nessa ordem, na mesma proporção.
A cada nova postagem por aqui sinto meu estômago dando voltas e isso sim é entrega. Isso sim é exposição, é amadurecer. O resto: vergonha, constrangimento e até a possível humilhação que os outros tentam tentado me fazer passar ficam cada vez menores. Acho que a única pessoa capaz de nos expôr sem deixar brecha somos nós mesmos, o resto o tempo apaga.
Esse texto é só pra lembrar à todos – sobretudo a mim – que sempre vai ter alguém querendo puxar o nosso tapete, nos colocar pra baixo e dizer que não somos capazes. Às vezes é a realidade atirada na nossa cara sem um pingo de sensibilidade, mas na maioria das vezes é só alguém com muito medo de reparar – em todos os sentidos da palavra – os próprios defeitos. Palavras assim costumam vir de quem realmente nunca consegue, dificilmente chega lá e quer espalhar isso pelo mundo.
Eu não. Eu consigo, mesmo que seja difícil, mesmo que seja sofrido e mesmo que demore. E tenho certeza que você também!